Doença é perigosa, tem crescido entre gatos e ainda é negligenciada por gateiros que hesitam em vacinar seus felinos contra ela

A leucemia viral felina (FeLV) é considerada uma das doenças infecciosas que causam mais impacto na medicina felina, mas, ainda assim, não é tratada com a devida seriedade entre gateiros e até alguns médicos-veterinários. “Isso é percebido pelo grande número de animais de estimação não vacinados que atendo. Muitos deles sequer tomam as vacinas mais simples e os responsáveis nunca tiveram o ensejo de fazer outras vacinas ou perguntar sobre elas. E muitos dos responsáveis, não têm o interesse ou negligenciaram a FeLV porque não foram orientados coma devida importância por seus médicos-veterinários”, critica Maria Alessandra Martins Del Barrio, de São Paulo, médica-veterinária especializada em medicina felina e uma das palestrantes do Congresso Felinos em Foco, de abril de 2026.
O médico-veterinário Alir De Biaggi Filho, um dos palestrantes do Congresso Infecto em Foco de abril de 2026, concorda. “Muitas vezes, os responsáveis agem de forma muito passional ao adquirir um novo gato, esquecendo a responsabilidade que envolve todo este processo”, alerta. Como os índices da doença vêm crescendo no mundo inteiro, a Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA) atualizou o protocolo de vacinação referente à FeLV em 2024. Desde então, todo gato que testar negativo para a doença deve ser vacinado como forma de prevenção através da vacina quíntupla felina (V5), que protege contra rinotraqueíte, calicivirose, panleucopenia, clamidiose e FeLV. “O que motivou esta atualização da WSAVA foi o aumento da prevalência da FeLV no mundo inteiro. No Brasil, temos taxas assustadoras, que ultrapassam 60% de gatos infectados em alguns estados. Essa foi uma virada de chave, e percebemos que os métodos de prevenção devem ser feitos de forma mais assertiva com: identificação dos gatos positivos, separá-los do resto da população para que eles não infectem outros gatos e vacinar os gatos negativos para a doença (incluindo os filhotes). Estes são os 3 pontos primordiais”, detalha Maria Alessandra. A veterinária alerta que esta é uma doença sem cura, de transmissão muito fácil, que não tem tratamento e leva o gato a óbito. “É preciso vacinar o maior número de gatos possível e a vacinação do filhote no mundo inteiro passa a ser crucial, pois no filhote o vírus encontra mais facilidade para se replicar. Já o individuo mais velho, que também começa a ter a supressão do sistema imune, pode ter outras doenças ou comorbidades que somadas à FeLV, encurtam a sobrevida dele”, explica a veterinária. Alir acrescenta que a capacidade da FeLV de imunossuprimir o gato infectado, deixa-o vulnerável a infecções e afecções oportunistas.
SINTOMAS
A FeLV afeta as células do sangue e o sistema imunológico do gato, e tem sintomas comuns, que podem facilmente ser confundidos com outras doenças. “Os sintomas são muito inespecíficos, pois como o vírus da FeLV é pancitotrófico (ou seja, tem afinidade por diferentes tipos celulares), não infecta um órgão em especial. Os sintomas mais comuns seriam anemia, falta de apetite, icterícia (quando as mucosas ficam amareladas), diarreia, entre outros”, aponta Alir. Desse modo, a FeLV não é uma doença facilmente percebida pelos responsáveis e se dissemina rapidamente, pois mesmo sem sintomas, o gato elimina o vírus no ambiente. “Quando há a manifestação dos sintomas, muitas vezes, o animal já está num estado mais avançado ou grave da doença”, acrescenta.
MIOU, TESTOU!
Os testes para diagnosticar a doença são bastante simples, e são feitos coletando pouco volume de sangue da veia ou da ponta do dedo do gato. Alir explica que existem 3 tipos diferentes: o teste rápido (que identifica o antígeno viral), que pode ser feito durante a consulta do veterinário; e os testes realizados em laboratório, que são o PCR (que identifica o material genético do vírus) e a imunofluorescência (importante para determinar se a infecção se tornou crônica e está estabelecida na medula óssea). Para evitar falsos negativos ou positivos, Alir aponta ser importante respeitar o tempo necessário que cada exame necessita para identificar o material viral necessário. “Por exemplo, o teste rápido precisa ser feito, em média, 28 dias após o contato com algum gato positivo, já o PCR precisa de 7 dias para identificar o RNA do material genético do vírus e de 14 dias para identificar o DNA. Outro fator que corrobora para o falso positivo, é quando o teste rápido é feito por marcas de laboratório que não apresentam trabalhos científicos que comprovem a sensibilidade e especificidade dos seus resultados”, detalha. Assim, o veterinário reforça a importância da quarentena quando se adota um felino, de 28 dias (caso a ideia seja fazer um teste rápido), ou de 14 dias, caso seja feito o PCR. “O importante é trabalhar na prevenção através de vacina, e utilizar o teste correto, além de respeitar o tempo de isolamento necessário antes de realizar cada exame”, reforça Alir.
EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO
Para proteger os gatos da FeLV o primeiro passo é educar os responsáveis sobre o que é a doença, como ela é transmitida e evitada. “Os veterinários precisam explicar tudo isso aos responsáveis de pets e testar os gatos para FeLV, pois a testagem é obrigatória. Gatos positivos para a doença devem ser afastados do resto da população felina e viver em uma comunidade nova, afastada de quem é negativo. Já os gatos negativos devem ser vacinados para protegê-los”, ensina Maria Alessandra.
GRUPO DE RISCO
Ainda segundo a veterinária, todos os gateiros devem se preocupar com a doença, pois ela engloba um grupo de risco extenso: gatos que vivem em colônias cuja densidade populacional proporciona um alto risco de transmissão de agente infecciosos (casas a partir de quatro gatos já entram neste caso); gatos mais sociáveis que gostam de ficar próximos a outros gatos, e lambê-los, por exemplo; gatos que têm acesso à rua e, portanto, contato com outros gatos; gatos que brigam com outros felinos, pois a doença também pode ser transmitida pela saliva; filhotes podem se infectar pela mãe através da placenta, do leite ou pela lambedura; e gatos que receberam transfusão sanguínea feita sem os devidos testes para FeLV nos felinos doadores. “Se parar para pensar, que gato escapa de tudo isso?”, provoca Maria Alessandra.
TRATAMENTO E CIÊNCIA
A FeLV não tem cura, porém a veterinária aponta que há um único tratamento chancelado pela Ciência que pode ser usado em casos específicos. “O AZT (Zidovudina) é usado em gatos com FeLV que estão adoentados. Esta medicação foi muito usada no início da década de 1980 quando o HIV começou a aparecer em humanos. Existem outros fármacos que podem ser utilizados para infecções retrovirais que a medicina veterinária está tentando extrapolar da medicina humana, mas cujos trabalhos publicados ainda não mostram eficácia associada à segurança. Muitos destes medicamentos têm uma toxicidade atrelada especificamente ao gato e há pesquisadores fazendo ajustes neste caminho”, compartilha.
Maria Alessandra também alerta que há veterinários tratando de forma inadequada a FelV, mirando em baixar a carga viral do indivíduo o tempo todo. “É preciso cuidado, pois a maior parte destas medicações geram mutantes resistentes num período muito curto, de 6 meses, e ficamos sem nenhuma cartada para tratar estes indivíduos quando efetivamente eles precisarem. Muitas destas medicações não temos disponíveis legalmente no Brasil e estão sendo trazidas por um mercado negro. Usar medicações que não têm respaldo científico, que não são seguras ao paciente, e que podem induzir o aparecimento de mutantes resistentes é uma grande irresponsabilidade”, alerta. A veterinária ainda lembra que o vírus da FeLV é primo do FIV (vírus chamado de aids felina), e que o FIV tem uma relação muito estreita com o HIV humano, fazendo com que o uso indiscriminado destas substâncias acabe induzindo o desenvolvimento de um vírus de HIV mais resistente em humanos. “A partir disso percebemos que temos uma responsabilidade muito maior e que não estamos querendo enxergar”, finaliza.
Agradecemos:

Alir de Biaggi Filho
Médico-veterinário com mestrado na área clínica Médica – FMVZ – USP; professor de graduação na Universidade São Judas – campus Unimonte e na Univerdade Municipal De São Caetano; professor de pós-graduação na área de Medicina Felina pelo IBVET, pela Anclivepa e FAMESP.

Maria Alessandra Martins Del Barrio
Médica-veterinária mestre em Clínica Veterinária pela USP, especializada em medicina felina. Autora de capítulos de livros de Medicina Interna de Pequenos Animais, Medicina Felina, Infectologia, Nefrologia e Parasitologia. Professora de Cursos de imersão, aprimoramento e especialização de Medicina Interna de Pequenos Animais e Medicina Felina.
Por Samia Malas
