Adestrador faz sucesso nas redes sociais ensinando gateiros a arte de se adestrar felinos!

Anderson Gonsales, o encantador de gatos brasileiro, e gato Léon (raça Bombay), da novela “O Sétimo Guardião”, que foi
treinado pelo adestrado
Anderson Gonsales, do Rio de Janeiro, conquistou gateiros pelas mídias sociais com suas dicas de adestramento e aulas sobre comportamento felino, e é tido como o “encantador de gatos” brasileiro. Hoje, ele tem mais de 100 mil seguidores em sua página no Instagram: @anderson_gonsales, mas quando começou o perfil, não imaginava que faria tanto sucesso falando sobre gatos. Confira bate-papo que tivemos com ele.
Revista Pulo do Gato: Conte-nos um pouco sobre sua formação profissional.
Anderson Gonsales: Sempre fui um apaixonado por comportamento animal, mas nunca imaginei que essa paixão se tornaria minha profissão. Minha jornada no adestramento começou sob a mentoria de Bruno Leite, uma referência no adestramento positivo. Ele foi fundamental no meu desenvolvimento profissional, e tive a sorte de integrar sua equipe de trabalho por alguns anos, aprendendo na prática os princípios que defendo até hoje. Em 2017, recebi um convite super especial das empresas Animais em Cena e Bichos Artistas para participar do treinamento de um cão que seria personagem de uma novela na Rede Globo. Foi um trabalho desafiador, mas o resultado foi incrivelmente gratificante, mostrando o poder do adestramento positivo em contextos complexos. Mas o maior divisor de águas da minha carreira foi o desafio de treinar quatro gatos para serem protagonistas de uma novela das 21h na Rede Globo. Sim, estou falando do famoso gato León da novela “O Sétimo Guardião”! Foi a partir dessa experiência que minha paixão pelos felinos se consolidou e decidi que trabalharia com gatos. A complexidade, a inteligência e a individualidade de cada um desses animais me cativaram de uma forma que não teve mais volta. Depois do gato León, tive a oportunidade de participar de outras produções televisivas, como “Órfãos da Terra”, “Topíssima” e “Espelho da Vida”, além de comerciais e minisséries. Em todos esses projetos, a base foi sempre o adestramento positivo, uma metodologia que respeito profundamente por sua eficácia e por promover o bem-estar animal.

O adestramento oferece uma via para fortalecer o vínculo entre gato e seu tutor, melhorando a comunicação e a confiança mútua
RPG: Quais são suas referências de estudo?
Anderson: Minhas referências são pilares que me guiam nessa jornada, e incluem nomes como John Bradshaw, Sarah Ellis, Jackson Galaxy, Karen Pryor, entre outras. Elas me fornecem a base teórica e a inspiração para continuar aprendendo e aplicando as melhores práticas no comportamento felino. É uma trajetória que me enche de orgulho, e que me permitiu transformar uma paixão em uma profissão que impacta positivamente a vida de gatos e tutores.
RPG: Quando começou a sua página no Instagram e qual era o seu objetivo no início?
Anderson: Não me lembro do ano exato em que comecei minha página, mas no início, falava muito sobre adestramento de cães e psitacídeos. A grande virada aconteceu em 2018, com a novela “O Sétimo Guardião”, cuja repercussão foi imensa. De repente, meu Instagram começou a ter um crescimento exponencial de gateiros curiosos, que queriam entender como funcionavam os treinamentos e como podiam aplicar aquilo com seus próprios felinos. Os gateiros estavam sedentos por informações, e essa demanda me mostrou um novo caminho. Desde então, meu Instagram se transformou em uma verdadeira vitrine para gateiros, um espaço dedicado a desmistificar o comportamento felino e a mostrar o potencial do adestramento positivo para a vida dos gatos e de seus responsáveis. É muito gratificante ver essa comunidade crescer e poder contribuir para o bem-estar de tantos felinos por aí!
RPG: A independência e espontaneidade do gato é um dos traços que gateiros mais gostam na espécie. Adestrá-lo vai mudar a personalidade dele?
Anderson: Sim, estes são, de fato, traços adoráveis dos gatinhos, e é um equívoco pensar que o adestramento as anularia. Na verdade, o adestramento, quando bem aplicado, não visa mudar a personalidade do gato, mas sim aprimorar sua capacidade de lidar com o ambiente humano e fortalecer o vínculo com seus responsáveis. O comportamento de um gato não é puramente inato, grande parte deles se desenvolve através da aprendizagem. O adestramento, portanto, é uma forma de canalizar e moldar esses comportamentos de maneira positiva, sem comprometer sua essência. Um gato independente continuará sendo independente, mas aprenderá a expressar essa independência de formas que são mais compatíveis com a vida em um lar humano. A espontaneidade, muitas vezes ligada ao comportamento predatório e à brincadeira, pode ser direcionada para atividades e brinquedos apropriados, em vez de, por exemplo, atacar mãos ou pés. O principal objetivo do adestramento é melhorar o bem-estar geral do gato e a qualidade do relacionamento com seu tutor, além de ajudar a evitar alguns problemas de comportamento. Agora, os benefícios do adestramento são vastos e impactam positivamente tanto no gato quanto no tutor, como: a melhora no bem-estar, pois o adestramento oferece ao gato mais controle sobre seu ambiente e rotina, reduzindo o estresse e a ansiedade (eles aprendem a lidar com situações como a caixa de transporte ou o manuseio para exames veterinários); outro benefício é o fortalecimento do vínculo tutor-gato, pois através do reforço positivo, o gato associa o tutor a experiências agradáveis, e isso aprofunda a confiança e o afeto mútuo, transformando a relação em uma parceria mais harmoniosa. Os benefícios são tantos, que podemos citar ainda, a redução de problemas comportamentais, aumento da confiança e redução do medo, estimulação mental e física, facilitação de cuidados essenciais, como ensinar o gato a cooperar com a escovação, aparar as unhas, exames de boca e ouvidos, ou a tomar medicamentos.


RPG: O que encontra de erro mais comum no seu dia a dia, na casa de seus clientes?
Anderson: Observo que muitos dos desafios na convivência com gatos surgem de uma falta de entendimento da natureza dos gatos. Não são erros intencionais, mas sim a aplicação de uma lógica humana a um animal com instintos e necessidades muito diferentes. Se fosse montar uma lista dos erros mais comuns, começaria citando o antropomorfismo, que é atribuir sentimentos e motivações humanas aos gatos. Isso leva a mal-entendidos sobre sua comunicação, suas necessidades e reações, resultando em frustração para ambos os lados. Um gato não age por “vingança” ou “pirraça”, mas por instinto ou estresse.
Um outro erro é a crença de que “gatos se dão bem” naturalmente e não precisam de adaptação. Gatos são predadores solitários que podem, sim, formar laços sociais, mas a competição por recursos (comida, água, locais de descanso etc.) e a falta de espaço pessoal são grandes fontes de estresse e conflito, muitas vezes silencioso. E pior, esse erro acaba levando a outro: o uso de punições! Gritos, borrifar água e outros castigos são ineficazes e prejudiciais. Eles não ensinam o gato o que fazer, apenas o que temer, gerando ansiedade, medo e pode até aumentar comportamentos indesejados ou agressividade.
RPG: E quais as reclamações que mais escuta sobre os felinos dos seus clientes?
Anderson: Os motivos que mais levam as pessoas a procurarem por ajuda giram, principalmente, em torno de sinais de estresse, ansiedade e necessidades comportamentais não atendidas. A queixa mais frequente, sem dúvida, é a de o gato fazer xixi e cocô fora da caixa de areia. Isso pode ser um alerta para problemas de saúde, ou um forte indicador de estresse ambiental, seja por conflito com outros gatos, mudanças na rotina ou por um manejo inadequado da própria caixa de areia.
Em segundo lugar, a agressão, seja contra pessoas ou outros animais. Na maioria das vezes, é uma manifestação de medo, dor, frustração redirecionada (quando o gato não pode atacar a causa real do seu incômodo e ataca o que está próximo) ou até mesmo brincadeira mal direcionada que se tornou agressiva.
Outro motivo comum é o conflito entre gatos na mesma casa, que se manifesta em brigas, perseguições ou uma tensão constante. Isso quase sempre decorre da competição por recursos limitados, como comida, água, locais de descanso e caixas de areia, e da falta de espaço ou privacidade, já que nem todos os gatos são naturalmente “amigos” e precisam de seu próprio território.
RPG: Como funciona a lógica do adestramento em gatos? É correto usar a palavra adestramento mesmo para gatos?
Anderson: A lógica do adestramento em gatos é bem diferente daquela que imaginamos para cães. Para os gatos, não se trata de obediência ou de agradar o tutor, mas sim de interesse próprio, e não tem nada de errado nisso (risos). O processo funciona ao identificar o que o gato valoriza, seja um petisco irresistível, uma brincadeira com seu brinquedo favorito ou um carinho no lugar certo, e usar isso como recompensa. Quando um gato percebe que um comportamento específico o leva a algo positivo, ele naturalmente tende a repeti-lo. É um sistema de reforço positivo, onde incentivamos as ações desejadas, criando associações benéficas e fortalecendo a confiança, sem nunca recorrer à força ou à punição.
Sobre a terminologia, sou um defensor da palavra “adestramento” mesmo para gatos, porque, no fundo, são apenas terminologias. O que realmente importa e deve ser levado em consideração é a metodologia aplicada nos treinamentos. Se olharmos para o significado da palavra, “adestramento” refere-se ao ato de tornar destro, hábil, ou de ensinar e exercitar para uma determinada função ou comportamento. Nesse sentido, quando ensinamos um gato a usar um arranhador em vez do sofá, a entrar na caixa de transporte sem estresse, ou a vir quando chamado, estamos, de fato, adestrando, tornando-o mais hábil e adaptado ao nosso ambiente. A questão não é a palavra em si, mas a abordagem. Se o “adestramento” é feito com base em reforço positivo, paciência, respeito aos limites e compreensão de suas necessidades, ele se torna uma ferramenta poderosa para o bem-estar do gato e a harmonia da convivência.
RPG: Adestrar gatos é necessário?
Anderson: Sim, de fato! O adestramento de gatos, antes visto como algo incomum ou até desnecessário, está ganhando cada vez mais espaço entre os tutores, e há várias razões para esse crescimento. Primeiramente, há uma evolução na nossa compreensão sobre os gatos. Por muito tempo, eles foram vistos como criaturas distantes e independentes, que não precisavam de muita interação ou estímulo. No entanto, a ciência tem revelado que os gatos são seres complexos, com necessidades comportamentais e emocionais profundas. Essa nova perspectiva desmistifica a ideia de que “gatos não podem ser treinados”, mostrando que eles são perfeitamente capazes de aprender e se adaptar. Em segundo lugar, as expectativas dos tutores modernos mudaram. Os gatos não são mais apenas caçadores de roedores; eles são membros da família, e os tutores buscam um relacionamento mais profundo e harmonioso. O adestramento oferece uma via para fortalecer esse vínculo, melhorando a comunicação e a confiança mútua.
RPG: Que recado deixaria para os gateiros?
Anderson: O maior presente que podemos dar aos nossos gatinhos é o conhecimento e a compreensão. Busquem entender a verdadeira natureza do seu gato: suas necessidades, sua linguagem corporal, suas preferências por um ambiente seguro e previsível. Desmistifiquem a ideia de que gatos são totalmente independentes; eles são capazes de laços tão profundos, que só a ciência pode explicar. E invistam no adestramento baseado em reforço positivo. Não para mudar quem seu gato é, mas para capacitá-lo a viver de forma mais feliz e segura em nosso mundo.
Por Samia Malas
