Ganhar dinheiro extra vendendo marmitas para gatos: verdade ou armadilha?

A internet oferece e-books sobre como preparar alimentos para pets e vender, mas saiba que esta prática é muito perigosa para saúde dos animais

Foto: Tatyana Kochkina/iStock

O mercado de alimentação natural para cães e gatos vem ganhando força, e com isso, muitos se aproveitam desta onda para ter um lucro extra, propondo o serviço de marmitas para pets nas redes sociais, que estão literalmente “infestadas” de anúncios oferecendo, como solução milagrosa para os seus problemas financeiros, a inciativa de fazer e comercializar marmitas para pets. Pela publicidade, parece que é só colocar arroz, carne e uns coloridos legumes e pronto, sair vendendo e ganhando dinheiro. Será?
Também são oferecidas receitas para as tais marmitas, através da compra de um e-book.
Estranhando o alto número dessa publicidade, adquiri o tal e-book com 10 receitas a um valor razoável de R$ 67,00 para “aprender” a preparar as marmitas e vender em pet shops. Porém, após a compra do material, enviei uma mensagem ao vendedor questionando se a pessoa que montou as receitas seria (no mínimo) um médico-veterinário, e a resposta foi negativa e evasiva, pois, me foi dito que um dos integrantes que participava do projeto era veterinário. Perguntei então o nome do profissional e me foi informado um nome bastante comum, impossível de procurar, ou seja, continuei sem resposta. Novamente tentei a investida e perguntei se alguma dessas pessoas teriam felinos e quantos experimentos foram feitos com o uso das tais receitas, e aí a coisa complicou. Nunca me responderam e acho que me bloquearam!
Contei esse breve relato para mostrar que essas formas milagrosas de ganho de dinheiro, infelizmente, não existem. Mas muito pior do que isso, pode ser uma armadilha para quem busca esse tipo de modelo de negócio sem ter uma formação em Nutrição Veterinária.
Como criadora, comecei a oferecer alimentação natural aos meus gatos em 2002, fazendo minha própria receita para um gato com problemas urinários. Dei início a uma série de estudos (de forma autoditada) onde adquiri inúmeros livros de veterinária e nutrição animal para estudar e entender como tudo funcionava. A “Sopinha da Roseli” foi a primeira receita que fiz. Muitas pessoas pediam a receita e eu cedia com a seguinte observação: “fulano, eu fiz para mim, veja que não sou veterinária, por favor fale com seu veterinário antes”. Para deixar claro que estamos tratando da alimentação de um animal, e é importante o acompanhamento do veterinário!
Quando se fala em culinária humana é preciso saber que são necessários conhecimentos básicos de cozinha, ingredientes e tipos de cocção, temperatura, tempo de preparo dos pratos, saber sobre contaminações cruzadas que podem ocorrer se não forem seguidas regras de segurança nos alimentos etc.
O profissional deve trabalhar com vestimenta de acordo com o seu trabalho, com touca, luvas quando necessário, a higiene é imprescindível, unhas cortadas, sem esmalte e outros muitos cuidados para garantir a segurança do alimento a ser consumido. Em se tratando de culinária pet é muito mais rigoroso! O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), é extremamente rigoroso na aplicação da lei sobre o preparo de alimentos para cães e gatos, tendo, inclusive, multas pesadas em seu descumprimento.

Preparar alimentos naturais para cães e gatos não é para amadores!

Primeiramente é preciso ter uma cozinha profissional, com tudo o que é necessário em termos de equipamentos. Também é obrigatório ter um funcionário registrado que cuide da cozinha, compras, estoque etc., em conjunto com o proprietário. É preciso também ter um nutricionista que possa calcular as porções e as informações nutricionais da receita para se fazer a rotulagem, que pode ser um zootecnista ou médico-veterinário especializado em Nutrição Animal. Igualmente importante, ter um menu diversificado, pois ninguém quer vender o mesmo prato! Além disso tudo, é preciso estar totalmente em conformidade com as normativas das Boas Práticas dos Serviços de Alimentação (as RDCs – Resolução da Diretoria Colegiada); saber e estudar sobre a legislação vigente no que tange às recomendações nutricionais do Manual Pet Food Brasil da Associação Brasileira da Indústria de Produtos Para Animais de Estimação (Abinpet) e por aí vai, a lista não para!
Portanto, após ter a cozinha profissional dos sonhos, um funcionário, um nutricionista pet, ter todos os tributos pagos com uma empresa aberta e devidamente registrada, você poderá pensar em começar a fazer as marmitas e vender, sem ter problemas na vigilância sanitária, nem em qualquer outro órgão. Estamos falando de investimentos e custos realmente altos.
Então quando me deparo com um anúncio que desperta nas pessoas o ânimo em ter uma renda extra, hoje em dia tão necessária, sentindo a suposta facilidade em preparar uma receita para um pet, me preocupo muito. À primeira vista pode parecer fácil, rápido e sem maiores problemas, mas alimentação caseira, nutrição animal, comida para pets, seja qual for o nome, sempre deve ser feita com embasamento. Apesar do dinamismo e esperança dos que buscam uma nova oportunidade, iniciar um novo empreendimento, sem as informações necessárias, pode ser um futuro transtorno.
Ao longo dos anos como criadora profissional de gatos de raça, me formei gastrônoma, fiz pós-graduação em Nutrição Animal e Segurança Alimentar, ministrei muitas palestras e tenho apostila própria sobre o tema. Portanto, o estudo é fundamental, e a principal ferramenta para identificar problemas. Processos delicados que podem mudar as vidas dos pets, mas também das pessoas. É preciso ter discernimento e muito cuidado!

Agradecemos
Roseli R. Tacioli
Criadora do gatil Cia. do Gato Persa desde 2002; gastrônoma; possui especialização nas áreas de Nutrição Animal e Segurança Alimentar; é Aromaterapeuta felina e palestrante sobre o tema de Alimentação Natural.
Instagram: @ciadogatopersa

Por Roseli R. Tacioli

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