Originária do Estado de Maine, nos Estados Unidos, a raça ganha cada vez mais popularidade em nosso país

Foto: Silvia Pratta/ Gatil Portogalo/ Gato: RW SGC Portogalo Ace
Nos últimos anos o Maine Coon se tornou consideravelmente mais popular no Brasil. “No início desse século quase ninguém conhecia esse gato no País, enquanto, hoje em dia, a raça é uma das mais vendidas por aqui ao lado do Persa”, afirma Glória Linares, do gatil LB Master, de São Paulo. “As pessoas passaram a reconhecer o seu nome, seja pela imponência física, pelo temperamento afetuoso ou pela presença nas redes sociais”, reforça Fernanda Falcão, do gatil Portogalo, do Rio de Janeiro. “Quando eu comecei a criar, há 13 anos, a popularidade do Maine Coon no Brasil já estava em alta e desde então só aumentou. Com isso, no Brasil atual, quem tem um mínimo de interesse por gatos conhece a raça pelo nome”, comenta Eder Viscardi, do gatil Monte Olimpo, de São Paulo. “Se antes as pessoas se surpreendiam com o tamanho, beleza e comportamento dele e questionavam se era um felino doméstico ou híbrido selvagem, hoje exclamam: ‘é um Maine Coon, não é?’”, destaca Glória.
Muito admirado e desejado pelos amantes de gatos de raça pura no País, o sucesso do Maine Coon é fácil de ser explicado. “Ele ocorre principalmente pela combinação do temperamento maravilhoso como aspecto selvagem de seu olhar, expressão e pontas das orelhas que lembram um lince, as chamadas lynxtips”, comenta Glória, que, em 2006, fundou, junto a alguns amigos criadores, a Associação da Raça Maine Coon (Amacoon), clube especializado que, dois anos depois, iniciou um trabalho forte na divulgação da raça, o que fez a popularidade do Maine Coon aumentar. “As pessoas valorizam o fato de ser um gato grande, bonito, exuberante e, ao mesmo tempo, dócil”, conta Eder. “Além de ser um companheiro inteligente, brincalhão e bem sociável, que se adapta bem com a família, crianças e com os outros pets da casa, o Maine Coon exibe porte grande, corpo robusto, tamanho imponente e sua cauda costuma ter número de vértebras maior do que os outros gatos, geralmente medindo por volta de até 45 cm contra ao redor de 25 cm das outras raças”, complementa Letícia Parreira Martins Correa, do gatil Donna Agatha, de Campos dos Goytacazes, RJ.

A raça possui uma variação muito grande de cores – existem mais de 30: na foto, Maine Coon fêmea da cor black tortie

Maine Coon e seu aspecto selvagem: orelhas com tufos de pelos nas pontas (lynx)
EVOLUÇÃO DA CRIAÇÃO
Os exemplares da raça foram introduzidos no Brasil há mais de 30 anos. “No início, isso se deu por meio da importação tanto de linhagens americanas como europeias, que têm diferenças no padrão físico. Por exemplo, o Maine Coon americano possui pelagem mais fina, expressão doce e orelhas menos pontudas, enquanto o europeu exibe pelagem densa, expressão mais selvagem e os ‘lynx’ das pontas das orelhas são maiores”, comenta Letícia. “Os das linhagens americanas têm como ponto forte a marcação e a estrutura óssea, mas hoje a própria criação dos Estados Unidos está importando exemplares da Europa”, afirma Glória. “Muitos criadores fazem o cruzamento das duas linhagens para ter um gato de padrão diferente”, acrescenta Letícia.
Glória relata também que, quando começou a criação, há 23 anos, os gatis brasileiros da raça não chegavam a uma dezena: “Razão pela qual fui buscar meus reprodutores na Europa. O cenário era desolador por aqui – havia uma quantidade significativa de exemplares fora dos padrões adotados pelas principais associações do segmento e sem o exame de cardiomiopatia hipertrófica, que, na época, era o único teste genético disponível”, relembra Glória. “Mesmo quando eu comecei a criação, o que ocorreu na década passada, o acesso a linhagens consistentes, informações técnicas e exames especializados era mais limitado”, acrescenta Fernanda.
A boa notícia é que o cenário nacional se tornou muito mais profissionalizado. “Quanto à estrutura geral, a qualidade da raça cresceu, aproximando o Brasil dos principais polos internacionais”, afirma Fernanda. “A evolução da raça por aqui foi bastante alta. Eu, por exemplo, importei vários gatos campeões em exposições e os cruzamentos entre eles deram certo, nascendo uma belíssima genética. E vi isso acontecer com vários outros criadores. Hoje temos ótimos gatis da raça no País, que fazem um trabalho muito sério e, entre os novos, há alguns que inclusive procuraram gatos comigo, ou seja, já com esta genética mais trabalhada e, assim, eles entraram na criação com exemplares bons, o que é fundamental”, conta Eder. “Há de fato gatis muito bons no Brasil hoje em dia”, comenta Glória. “Existem realmente criadores da raça em nosso país com gatos de excelência na genética”, confirma Letícia. Eder acrescenta: “Não à toa, na Exposição Mundial da Fédération Internationale Féline (FIFe) de 2025, realizada em outubro na Romênia, dois exemplares da raça de criação brasileira foram nominados para a final na categoria kittens (filhotes). Um deles, Monte Olimpo Édipo, nasceu no meu gatil e permanece sendo de minha propriedade”. Ser nominado para a final de uma Exposição Mundial consiste em disputar o Best in Show, título dado ao melhor gato em sua categoria (na FIFe há quatro existentes, sendo que a do Maine Coon é voltada para raças de pelagem semilonga, caso também do Norueguês da Floresta, do Siberiano, etc.) e de sua divisão (na FIFe elas são as seguintes: machos adultos não castrados; machos adultos castrados; fêmeas adultas não castradas; fêmeas adultas castradas; filhotes, de 4 a 8 meses; juniors, de 8 a 12 meses). Após tal classificação, o exemplar se junta a outros gatos também convocados. Então, cada um dos juízes presentes vota em um deles: o mais votado recebe o Best in Show.

Foto: Arquivo do criador (gatil L.B. Master)/Gata: L.B. Master Kiara, best over all (melhor entre todas as categorias e idades) em exposição da Amacoon
Fêmea da raça da coloração Blue Tortie Silver Blotched: o macho geralmente é ainda maior e mais forte

Os exemplares da raça costumam ter número de vértebras maior que os outros gatos
EFEITOS DA FAMA
“A popularização trouxe, como efeitos positivos para a raça, uma maior disseminação de informações e maior diversidade genética graças à realização de importações”, conta Fernanda.
“Eu trago gatos de países que mostram ter lindos exemplares da raça, como a Alemanha, Áustria, Noruega, Polônia e Itália”, comenta Glória. “No meu gatil trabalho exclusivamente com linhagens internacionais originárias do Cazaquistão, Rússia e Espanha. Aliás, nos últimos anos, boa parte dos criadores brasileiros tem importado desses três países, que foram escolhidos pela excelência no desenvolvimento da raça, forte controle de saúde, estrutura física marcante e qualidade de temperamento”, afirma Fernanda. Eder comenta: “Tenho visto criadores nacionais importando exemplares da Itália, Espanha e do leste europeu, principalmente da Romênia, Rússia e das ex-Repúblicas Soviéticas, caso da Lituânia e Ucrânia, onde estão bons criadores que lidam com a raça há mais tempo que nós brasileiros – se hoje existem gatis por aqui trabalhando com o Maine Coon desde o início do século, nesses países há os que criam a raça por quatro décadas, e quando a pessoa cruza o melhor com o melhor por um período de tempo maior, ela tem mais chance de gerar filhotes e exemplares adultos mais bonitos. Como se vê, os brasileiros optam pelas nações com os exemplares mais belos dentro dos padrões do Maine Coon e que já possuem as características da raça bem fixadas, já que tiveram um tempo maior para tanto”.
Mas Fernanda pondera: “Com a popularização, houve também a entrada na criação de gatis sem compromisso com saúde e seleção”. Glória explica se tratar de criadores oportunistas que veem na reprodução do Maine Coon uma maneira de fazer dinheiro fácil e que entregam filhotes totalmente fora do padrão – na idade adulta, eles pouco se assemelham aos exemplares típicos. “São apenas um pouco maiores que as raças usuais, mas com tamanho e peso menores e estrutura óssea mais leve que o desejado para um Maine Coon, além de comumente apresentarem orelhas pequenas e sem lynx tips, queixo fraco e desalinhado com o focinho, tanto na largura quanto na profundidade, perfil reto e temperamento questionável”. Letícia esclarece: “O exemplar típico da raça exibe orelhas grandes ou ao menos proporcionais, peito largo e pernas de comprimento médio”.
Glória alerta: “Mas o mais sério é que, muitas vezes, esses filhotes fora do padrão possuem até a saúde debilitada, tanto clínica quanto geneticamente – em geral por excesso de cruzamentos consanguíneos, que acarreta diversas enfermidades ao gato. Isso acaba frustrando o cliente, que só vai notar tais problemas, normalmente crônicos, quando já levou o Maine Coon para casa –, e por não contarem com higiene básica tampouco com exames de saúde. Esses últimos são pré-requisitos necessários para que um exemplar seja um reprodutor e iniciar ou insistir em trabalhar com exemplares inadequados pode trazer problemas”.
Fernanda relata: “Tais exames estão mais acessíveis graças ao avanço da tecnologia e maior disponibilidade de laboratórios especializados”.
Eder conclui: “Um dos laboratórios que os realiza é o da Faculdade de Medicina Veterinária de Botucatu, da Unesp”.

Eder com Édipo Quarto, Maine Coon brasileiro que foi para a final do Campeonato Mundial e campeão das Américas no American Winner 2025


Creta e sua filha Sparta: a mãe, que detém o título de junior winner, foi campeã das Américas em 2023 e, Sparta, em 2025
AMBIENTE IDEAL
O proprietário particular também pode colaborar para que esse gato tenha qualidade de vida ao longo de sua existência (de acordo com Letícia, o exemplar da raça vive, em média, de 12 a 15 anos): “Apesar de não ser fundamental, é sempre bom que o responsável dê uma ‘gatificada’ no lar de um Maine Coon”, comenta Glória.
Eder acrescenta: “Claro que o Maine Coon vai apreciar se o dono fizer adaptações em sua casa, criando nichos e colocando arranhadores e/ou prateleiras”. Assim esse gato poderá subir nelas, além de brincar e se exercitar. “Mas eu lembro sempre que, como são pesados, se saltarem de locais muito altos podem deslocar o joelho ou a cabeça do fêmur, quebrar um osso, e o cliente vai ter um problemão nas mãos. Então é fundamental projetar o espaço com cuidado. Eu, pessoalmente, não gosto de nada muito alto para evitar acidentes”, pondera Glória. Ela alerta para o problema da obesidade (o Maine Coon pode pesar de 4 a 12 kg): “Passou disso é doença, atinge coluna, patela e fêmur, além de colesterol e triglicérides (gorduras presentes na corrente sanguínea)”. Eder finaliza: “E o Maine Coon precisa ter acesso a uma fonte com água filtrada – os exemplares dessa raça não gostam nada de tomar água com lodo, sujeira, poeira ou até mesmo com pelo deles”.

Maine Coon fêmea criada por Glória, da coloração black tortie blotched: ela recebeu o título de campeã das Américas no American Winner 2025

Fêmea Maine Coon da cor red classic tabby, importada da Espanha

Maine Coon da cor blue (azul sólido), filho de pai e mãe russos
MANUTENÇÃO NÃO COMPLICADA
“Higiene também é saúde”, ressalta Glória. Ela explica que a pelagem do Maine Coon é semilonga e semi-impermeável, o que significa que possui um quê de oleosidade com a função de unir os fios, selando-os de forma a protegê-los da neve, da chuva e do frio intenso. “Quando esse gato sai da condição de floresta para o abrigo de um lar, essa oleosidade acaba se acumulando e causando dermatites, por isso ressalto sempre a importância de se realizar banhos a cada três ou quatro semanas”.
Glória afirma ainda que é preciso saber fazer o banho do Maine Coon ou então não se vai conseguir retirar a oleosidade da pelagem completamente. “Por sorte há profissionais na área que ministram cursos excelentes”, afirma a criadora.
Quanto à escovação, Glória afirma: “Pelo menos uma vez por semana deve-se pentear o Maine Coon, evitando assim formação de nós e que os pelos mortos se acumulem no ambiente. E digo sempre aos clientes que ao acariciarem seus gatões investiguem uma possível formação de nó e, encontrando, que a desmanche”.
Agradecemos a colaboração de:
Associação: Associação da Raça Maine Coon (Amacoon) – www.amacoon.com.br
Eder Viscardi, gatil Monte Olimpo – (11) 97996-2421, Instagram: @gatilmonteolimpo, Facebook: Eder Viscardi
Fernanda Falcão, gatil Portogalo – (21) 3962-3434, Instagram: @gatilportogalo, [email protected]
Glória Linares, gatil LB Master – (11) 99918-3438, Instagram: @lbmaster_mainecoons
Letícia Parreira Martins Correa, gatil Donna Aghata – (22) 98838-2324, Instagram: @cats_donna_aghata, www.gatildonnaaghata.com.br
Por Fábio Bense
