RAIVA: novos casos acendem alerta para a vacinação de pets

Doença é uma das perigosas e antigas do mundo, não tem cura e exige vigilância de responsáveis e veterinários

Foto: Bulat Silvia/iStock

Uma das zoonoses mais graves e antigas do mundo, a raiva exige atenção constante de responsáveis de cães e gatos e de médicos-veterinários. A doença, que tem até um dia reservado no calendário para ser lembrada, o Dia Mundial da Luta contra a Raiva, celebrado em 28 de setembro, tem como prevenção a vacina antirrábica de cães e gatos, obrigatória desde1973 no Brasil. Embora tenhamos atingido um marco histórico de 10 anos sem casos de raiva humana transmitida por cães e o risco atual da doença seja, principalmente, causado por animais silvestres, como morcegos, um caso de raiva em gato na cidade de Jundiaí-SP em novembro de 2025 acendeu um novo sinal de alerta aos responsáveis de cães e gatos e aos veterinários – o último caso de raiva em gato na cidade datava do ano de 1983. Antes disso, em agosto de 2023, o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP) confirmou um caso de raiva em um cão no bairro do Butantã, em São Paulo. “Estes casos de raiva em pets são extremamente preocupantes, pois representam uma quebra na vigilância da raiva. Eles indicam claramente que o vírus nunca desapareceu na forma silvestre e que a cobertura vacinal em pets diminuiu ao longo dos anos, pois muitos responsáveis acharam que não era mais necessário vacinar. A nossa vigilância epidemiológica também enfraqueceu, tornando mais difícila inda detectar casos de forma precoce. Então, estes eventos funcionam como um alerta vermelho de que precisamos retomar a seriedade com que tratávamos a doença décadas atrás”, aponta o médico-veterinário Rodrigo Rabello Duemes, especializado em animais selvagens e manejo de fauna de Brasília, DF, e um dos palestrantes dos Congressos Infecto em Foco e Exóticos em Foco, que acontecem entre 14 e 16 de abril de 2026, em Campinas-SP. Ainda segundo Rodrigo, a raiva no Brasil nunca desapareceu ou foi completamente erradicada, embora tenhamos tido períodos de controle muito eficientes. “O que ocorreu foi uma redução drástica de casos, especialmente entre os anos 1980 e 2010, graças a campanhas massivas de vacinação e de controle de cães errantes, mas isso causou uma falsa sensação de segurança nas pessoas”, explica.
Desse modo, podemos dizer que a raiva tem que ser uma preocupação dos responsáveis pelos pets e dos médicos-veterinários hoje, e sempre. E Rodrigo aponta várias razões concretas para isso: “com a urbanização da fauna silvestre, morcego, guaxinim, sagui, e vários outros destes animais estão cada vez mais presentes nas áreas urbanas, especialmente nas cidades que são cercadas por vegetação. Houve também uma redução na vigilância epidemiológica e os profissionais que lidam com animais estão menos preparados para isso, além da já citada queda na cobertura vacinal dos animais de estimação.” Além do mais, o veterinário também destaca: “O que torna a raiva especialmente preocupante é o fato dela ser uma doença praticamente 100% fatal, pois uma vez dos sintomas aparecerem, o potencial de sobrevivência é quase zero. E ela tem um potencial de risco zoonótico gigante. É uma das doenças mais graves conhecidas, uma vez que o vírus vai para o sistema nervoso central e é praticamente morte certa.”

TRANSMISSÃO
Causada por um vírus da família Rhabdoviridae esta doença infecciosa não tem cura e sua transmissão ocorre do animal infectado para o ser humano, principalmente por mordedura ou pela saliva em pequenos ferimentos. Rodrigo explica que, historicamente, os cães sempre foram considerados os principais reservatórios urbanos do vírus da raiva, fato que justificava campanhas de vacinação muito focadas neles. “Porém, os cães têm comportamento mais previsível, ficam mais próximos da casa e têm maior probabilidade de serem vacinados e menos contato com animais silvestres do que os gatos, que têm um comportamento exploratório e predatório muito mais acentuado, mesmo quando vivem em casas, caçando pequenos mamíferos – que são justamente os potenciais transmissores”, destaca o veterinário. Aliado a estes fatores, Rodrigo acrescenta que a cobertura vacinal dos gatos costuma ser menor, pois muitos responsáveis ainda acreditam que este pet não precisa de vacina. “Gatos correm risco potencialmente maior de se infectarem do que os cães, não tanto por ser um reservatório da doença, mas pelo comportamento predatório combinado com a cobertura vacinal inadequada”, enfatiza o veterinário.
Em se tratando de animais silvestres transmissores, Rodrigo aponta que morcegos e saguis continuam sendo os animais top da lista para ficarmos atentos, mas não são os únicos vilões. “Os guaxinins são muito importantes na transmissão também e estão sendo considerados animais emergentes em algumas regiões do País, pois estão se adaptando muito bem em ambientes urbanos, têm um comportamento exploratório e predatório, e podem atacar os pets. Os saguis, ainda são relevantes, mas transmitem menos que os morcegos. Os cães errantes têm um potencial grande de transmissão, mas também temos os gambas, as raposas e outros carnívoros silvestres em geral”, comenta.

SINTOMAS
Em termos de sintomas, Rodrigo explica que a raiva pode se manifestar de duas maneiras: a forma furiosa (com agressividade extrema sem causa aparente, comportamento anormalmente hostil, tende a atacar o próprio dono e babar – hiper salivação, pupila dilatada, sensibilidade à luz e ao som, e desorientação) e a forma paralítica, que é a mais comum em cães e percebemos uma paralisia progressiva, geralmente começando com os membros posteriores, a boca fica aberta e o pet tem dificuldade em engolir, fica apático e com dificuldade respiratório.
“Em termos gerais, entre os sintomas comuns da raiva, podemos citar febre, mudança de comportamento drástica, o animal tende a se isolar, fica afastado do grupo e das pessoas, a hidrofobia, convulsões e pode entrar em coma”, acrescenta o médico-veterinário.

TRATAMENTO
Não existe um tratamento eficaz para a raiva uma vez que os sintomas clínicos aparecem, porém, Rodrigo diz que a profilaxia pós-exposição, realizada de forma rápida, quando há exposição do humano ou pet ao vírus, é eficiente. “Se houve uma mordida ou um acidente com algum animal silvestre ou doméstico que pode estar infectado, o que fazemos é a vacinação, mais os testes e a imunoglobulina (que é a sorologia). Isso é altamente eficaz se fizer a administração de forma precoce e rápida”, explica.

AÇÃO RÁPIDA
Assim, em casos de suspeita de infecção por raiva, o veterinário orienta que: não se deve entrar em contato direto com o animal, sempre usar luvas e equipamentos de proteção; procurar um veterinário imediatamente; informar qualquer tipo de exposição conhecida com algum animal silvestre; sempre isolar o animal num local seguro, que não tenha contato com outras pessoas e bichos; sempre notificar as autoridades de saúde e a vigilância epidemiológica; se houver contato humano com o bicho, procurar imediatamente um hospital para realizar a profilaxia de pós-exposição”, finaliza.

Colaboração de:

Rodrigo Rabello Duemes
Médico-veterinário especializado em animais selvagens e manejo de fauna, ministra cursos e palestras (inclusive fora do Brasil). Mestre em cirurgia e anestesia em animais selvagens pela UFU e doutorando em zoologia pela UESC.
Contato:@rabello77

Por Samia Malas

Compartilhe essa notícia!