Educação familiar: animais ensinam a respeitar

Por que ter animais em casa faz com que crianças sejam mais generosas, tenham empatia e aprendam a conviver em sociedade?

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Quando temos a tarefa de educar crianças, a palavra respeito é bastante utilizada. As crianças aprendem desde cedo que devem respeitar os outros quando estão em convivência. Isso significa que elas precisam pensar não somente nos seus desejos e necessidades, mas também, observar os desejos e necessidades dos outros, bem como aprender sobre as regras de convivência que existem dentro de qualquer tipo de comunidade.
A tarefa nem sempre é muito simples, já que é necessário um forte componente racional para que se consiga controlar vontades próprias em prol de melhor convivência com os outros. As crianças ainda carecem de maturidade para tomar decisões sozinhas e precisam, dessa maneira, ser educadas para isso. A presença de animais no convívio direto com seres humanos, como ocorre no caso de um animal de estimação, inclui uma nova variável nessa equação: a relação entre um ser humano, capaz de decidir racionalmente por reprimir alguns de seus desejos em nome de uma melhor convivência, e outro ser vivo, o pet, que também tem desejos e necessidades, mas que não tem capacidade de tomar decisões racionais acerca disso. Não se pode pedir a um cachorro ou gato que respeite o espaço e as regras da casa, por exemplo. Embora seja possível treiná-lo para isso, essa nunca será uma decisão tomada por ele, com base em suas reflexões sobre a melhor forma de convivência.
Assim, a convivência com animais é uma fonte muito rica de possibilidades de ensinamentos para crianças. Diferentemente do caso de convivência entre dois seres humanos, a decisão por respeitar as necessidades e demandas do outro é da pessoa, não do animal. Como dito anteriormente, os
animais podem aprender a respeitar espaços ou regras, mas sempre será em troca de recompensa ou por medo de reprimenda. Nunca um animal decidirá respeitar regras sozinho. O respeito deliberado de regras sem que sejam impostas por ameaças de punições ou por troca de recompensas é a verdadeira moral. Um comportamento moral é definido pela decisão de ter uma atitude que respeite regras e pessoas porque entende-se que isso é o que deve ser feito. E esse já é o primeiro ensinamento que animais passam para as crianças: a tolerância com as diferenças. A criança poderá aprender a respeitar muitas das diferenças que existem entre ela e o animal, entendendo qual o seu papel nessa relação. Ela vai entender que, muitas vezes, o animal não consegue respeitar algumas das regras, pois não tem capacidade de discernimento, o que poderá ser aplicado em situações de convivência com bebês ou outras pessoas com alguma deficiência na capacidade de discernimento. Nesse caso, a pessoa entenderá que a responsabilidade pelo respeito é dela.

Aprendendo a ter empatia

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Outras regras de convivência, como a de que qualquer tipo de comportamento agressivo pode gerar dor e sofrimento no animal ou em outra pessoa também podem e devem ser exploradas quando se educa crianças que convivem com animais, especialmente as mais novas, que ainda não entendem esse ponto. Bons exemplos e conversa ajudam a criança a aprender que os animais também sentem dor. Isso está relacionado com empatia, ou seja, com a capacidade de se colocar no lugar do outro. Uma criança que se coloca no lugar de um animal que está sofrendo dará um primeiro passo no sentido de fazer o mesmo com outros seres humanos. Isso levará ao desenvolvimento da compaixão e da generosidade.
Há, inclusive, um componente hormonal e biológico que pode explicar parte desse fenômeno da empatia entre pessoas e animais. Estudos mostram que o hormônio ocitocina, conhecido como “hormônio do amor”, é responsável pela empatia e pela generosidade. O neuroeconomista Paul Zack lançou, em 2012, o livro A Molécula da Moralidade (Elsevier Editora) que explica o papel da ocitocina na moralidade. Segundo ele, a ocitocina é a base biológica do amor e ajuda as pessoas a confi ar umas nas outras. Pode-se impulsionar um ciclo virtuoso, já que a ocitocina gera empatia, que inspira confiança e aumenta os níveis hormonais na outra pessoa, que, por sua vez, demonstrará mais empatia.
O que isso tem a ver com os pets? Na verdade, tem muito a ver! Muitas pesquisas já mostraram que na relação entre animais de estimação e seres humanos, há um aumento da ocitocina nos dois. Assim, pessoas que convivem com animais de estimação produzem mais esse hormônio. Por isso, algumas pesquisas mostram que crianças que possuem animais de estimação são mais populares na escola e têm mais empatia com outras crianças. Dessa forma, crianças que convivem com pets tendem a ter mais empatia por outros seres vivos, o que, por sua vez, desencadeará um comportamento mais generoso.
A empatia também é a base do comportamento ético: ao conseguirmos nos colocar no lugar dos outros, assumimos nossas responsabilidades da vida em sociedade. Assim, crianças que sentem empatia tendem a respeitar as outras pessoas, as regras de convivência e os animais com os quais convive.

Agradecimentos;

Juliana Santin Médica veterinária formada pela FMVZ/USP, com especialização em Ética.
santinjuliana@gmail.com.
oshomenseosanimais.wordpress.com


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